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10.06.15

Midialivrismo de direita?

Midialivrismo de direita?

Por Wilson Gomes*

O sujeito humilha e intimida o pobre migrante haitiano que estava trabalhando. Assustador, feio, mas faz parte do padrão mundial de xenofobia, que tem muitas vezes os brasileiros como objeto da humilhação. Um dos argumentos, o “estão roubando os nossos empregos”, é uma das clássicas justificativas para o preconceito geográfico e para a perseguição a migrantes. A novidade no caso é que o sujeito fez isso deliberadamente, para gravar e postar em alguma mídia social. O “justiceiro” gaúcho levou alguém para filmar e se comportou conforme a gramática do “jornalismo de intervenção” (meio reportagem, meio atuação teatral, meio documentário).

Não foi um sujeito flagrado humilhando um frentista pobre, negro, migrante, mas um ativista que registrou a sua intervenção na realidade e fez questão de divulgá-la via ambientes digitais. Claramente queria  demonstrar uma tese, um ponto de vista político, ilustrando-a com um audiovisual realista. O justiceiro estava militando. Exibia a certeza do ativista, a coragem moral e a audácia dos que transformam convicções em ação política. Podemos inferir que o racismo e a xenofobia moviam o seu desembaraço, mas o que é evidente é que ele era um portador de convicções, de “conhecimentos”. Era o peito parrudo e o braço armado de uma certeza: estava convencido de que os haitianos fazem parte de um complô comunista para uma intervenção armada no Brasil, promovido pelo Foro de São Paulo e pelo governo.

Ele, o documentarista (“midialivrista de direita”?) militante, roupa camuflada para escancarar sua paixão militar, estava lá para desmascarar, demonstrando-os, os tentáculos do comunismo internacional armado que chegou ao Brasil por meio de fracos e miseráveis frentistas haitianos. A xenofobia e o racismo, sabemos de onde vêm, mas qual a fonte dessas convicções? Quem armou o braço deste bruto? Quem preencheu o oco desta cabeça imbecil com ideia tão estapafúrdia? Ora, senhores, esta é fácil, a ideia do complô comunista do Foro de São Paula é da mais pura lavra Olavão. E foi colocada e alimentanda na roda das mídias sociais pela sua alcateia de descerebrados repetidores, de Lobão a Rodrigo Constantino, de Moura Brasil a Roger.

Como cabeça vazia continua sendo oficina do diabo, da cabeça de Olavão para o braço do justiceiro xenófobo foi um passo curto e em linha reta. Confesso que sempre tenho medo do militante portador de grandes certezas e de tão curto pensar, tão pronto para a ação quanto despreparado para a reflexão. Mas quando ele é de direita, bruto e destemido da reprovação pública, me vêm à mente memórias que eu preferia esquecer. Que tempos! Entenda o caso:

* Wilson Gomes é Professor Titular de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia e um dos coordenadores do Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD).